O Medíocre Leitor Brasileiro de Quadrinhos Nacionais

E na data de hoje, 30 de Janeiro, comemoramos o Dia do Quadrinho Nacional. Realmente é um dia que nós, leitores, fãs ou membros da indústria devemos comemorar. Afinal, se você acompanha a cena brasileira de artistas independentes sabe o quanto é difícil entrar nesse mercado, quem dirá viver exclusivamente dele. Passamos por um bom momento onde diversos criadores conseguem publicar suas obras de uma maneira muito mais fácil e profissional se comparado a uma década por exemplo.

Mas nem tudo são flores como diz o ditado. Hoje eu vi diversos amigos e colegas desse meio nerd “especializado” publicando muitas indicações de bons quadrinhos nacionais disponíveis para qualquer um que quiser conhecer. E digo que essa é uma iniciativa EXCELENTE que deveria rolar o ano todo, diga-se de passagem. Mas uma postagem em especial me chamou a atenção: a dos caras do Melhores do Mundo que você pode conferir clicando aqui.

Minha edição dos quadrinhos do MDM. Cadê a 2ª edição, seus trastes? HAHA

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A proposta deles foi bem direta ao dizer que “ao invés de fazer um post de recomendações, resolvemos dar nossas impressões sobre o que está bom e o que está ruim no mercado atual”. Quem conhece o MDM sabe que a trupe já vem falando disso há bastante tempo e que a política editorial deles é bem, digamos… peculiar. Por isso caso você não conheça não se assuste ao dar aquele giro pelo site (e evite a área de comentários! HAHA).

Já havia uma intenção de escrever algo sobre o dia de hoje, mas devo dizer que a postagem deles me fez pensar melhor e avaliar como talvez fosse bacana mostrar um outro lado: aquele do leitor medíocre de quadrinhos nacionais do qual eu, talvez você e a maioria dos leitores fazemos parte.

Mas antes que você se sinta ofendido saiba que medíocre não é nenhuma ofensa propriamente dita, na verdade cada um de nós é medíocre em muitas coisas. Basicamente o significado da palavra é classificar algo como “abaixo da média”. Um leitor medíocre de quadrinhos nacionais pode ser aquele que só passou por cima de alguns títulos com maior visibilidade (como as Graphics MSP da Turma da Mônica) ou ainda possui algum ranço sobre a qualidade e o conteúdo desse tipo de obras do tipo “ah, quadrinho nacional não é muito bom mesmo”. Isso sem nem sequer ter um conhecimento profundo sobre o que rola no mercado interno atualmente.

Mas como eu identifico esse tipo de leitor?

Um bom lugar, por exemplo, são os grandes eventos de cultura nerd. E para isso podemos pegar a CCXP como um ótimo demonstrativo. Quem conhece sabe que o evento conta com um espaço chamado Artist Alley, dedicado a hospedar diversos artistas, nacionais e internacionais, que ficam ali em suas mesas vendendo algum tipo de produto, autografando material dos fãs ou simplesmente trocando uma ideia com o público. Posso dizer por experiência própria que 50% de todo o tempo que estive no evento (contando as edições 2015 e 2016) eu fiquei rodando pela Artist Alley. Em parte, para produzir material aqui para o site e para o nosso canal (dá uma olhadinha lá depois). E é bem claro o que vemos por lá.

Primeiro são as enormes filas para as mesas dos artistas estrangeiros, o que é perfeitamente compreensível. Quando você teria a oportunidade de conhecer de pertinho caras como Alan Davis, Simon Bisley, Arthur Adams, Bill Sienkiewicz, Mark Farmer. Isso só para citar alguns nomes da edição passada. Meu Deus, em 2015 eu saí de lá realizado com minha edição definitiva do “Reino do Amanhã” autografado pelo Mark Waid!

O mais próximo que deu pra fazer contato com o Simon Bisley na CCXP 2016.

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Mas não só os gringos dominam o espaço, coloque na conta as intermináveis filas para falar com os artistas do projeto MSP. É quase impossível chegar perto do Vitor e da Lu Cafaggi. Ano passado eu tive de marcar horário, literalmente, para gravar com o Gustavo Duarte, Rogerio Coelho e o Eduardo Damasceno. É incrível ver como esse projeto encabeçado pelo Sidney Gusmão (grande Sidão!) conseguiu reviver todo o nosso amor pela Turma da Mônica e, ao mesmo tempo, nos apresentar artistas tão sensacionais.

Mas estamos falando aqui de talvez menos de 10% de todos os presentes na Artist Alley que em 2015 registrou 165 mesas com 225 artistas. E no ano passado sofreu um aumento de 265 mesas com mais de 300 artistas! Podem acreditar, é MUITA gente. Se você tiver como proposta realmente conhecer todos os trabalhos expostos por lá eu afirmo sem medo de errar que os 4 dias de evento não serão suficientes.

Mas a grande verdade é que diversas mesas passam desapercebidas pelo grande volume do público. E é nesse ponto que eu digo que somos leitores medíocres.

Anarquia e Quadrinhos Ácidos, ótimos quadrinhos nacionais de gêneros bem variados.

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Entendam que em nenhum momento eu critico quem vai para ver os quadrinistas internacionais ou a galera que ocupa as filas dos artistas MSP. Muito menos quero gerar uma síndrome de vira lata, tratando como coitadinhos aqueles cujas mesas quase não são visitadas. O que eu quero dizer é que é triste ver um evento nacional que oferece espaço a diversos artistas brasileiros não ser abraçado por um público que consome tão arduamente esse tipo de mídia.

Eu fiquei reparando em um grupo desses numa das filas do pessoal da MSP dizer que “ah, agora temos de valorizar os quadrinhos nacionais, né?!”. Mas na pilha de volumes que ele segurava haviam apenas títulos da franquia do senhor Maurício de Souza. Não estou julgando ninguém (na verdade estou sim), mas é esse o tipo de atitude que nos torna leitores medíocres.

Nós realmente já passamos por uma fase onde o quadrinho nacional emulava o estilo gringo, tanto pela influência de criação como pelo fato de assim ser tornar algo mais vendável. Não podemos esquecer também dos fanzines que até hoje encontramos nos chamados “eventos de anime” lutando por algum reconhecimento. Mas atualmente esse panorama é totalmente diferente.

Existem diversas obras realmente boas tanto em conteúdo como em qualidade de produção. É fácil para mim visitar e adquirir o trabalho de profissionais de grande destaque como o amigo Rodney Buchemi e seu intrigante “Ordem de Licaão”, que já chegou na 2ª edição com a força de quem sabe como é difícil produzir de maneira independente. Tive também o prazer de conversar, entrevistar e adquirir obras do Rafael Albuquerque, que hoje merecidamente consegue cada vez mais espaço no mercado americano, mas que também já ralou muito por aqui até chegar onde chegou. Houveram aqueles que eu nem consegui chegar perto, como o Daniel HDR, que dá autógrafo, conversa, come e desenha… ao mesmo tempo. Isso tudo sem mencionar os diversos talentos agenciados pela Chiaroscuro.

Rodney Buchemi representando os produtores independentes com o seu Ordem de Licaão.

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Eu tenho feito cada vez mais esforços para deixar de ser um leitor medíocre nesse ponto. Graças a isso eu comecei a conhecer obras empolgantes como “Anarquia” do Supernova Produções, mostrando uma vigilante brasileira, totalmente não sexualizada, entrando de frente no meio de confrontos políticos. Pude me divertir com os Quadrinhos Ácidos do Pedro Leite, que todo mundo adora compartilhar no Facebook mas nunca se preocuparam em saber de onde vieram aquelas tirinhas geniais. Fiz um passeio pelo mundo gótico e sensual das vampiras “Famintas” do pessoal da Aquário Editorial e viajei forte com o emocionante “Palestina” do Denis Melo e Beth Monteiro.

Palestina e Famintas, descobertas que a gente faz procurando por aí.

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E tudo isso só para citar algumas coisas legais que tenho aqui.

Quando você realmente se propõe a fazer algo acaba descobrindo que nem precisa ir muito longe para conhecer coisas novas. Eu sou residente da Baixada Fluminense, região do Rio de Janeiro bem longe das praias e do luxo que aparecem nos cartões postais cariocas. E descobri os caras da Capa Comics que fazem um trabalho maravilhoso usando o cenário aqui da região para contar histórias de super-heróis. Ah, vale dizer que a galera do Capa tem sido responsável por encabeçar diversos pequenos eventos de quadrinhos aqui no Rio de Janeiro, principalmente em lugares que antes nunca haviam visto algo do gênero.

Capa Comics, projeto que transforma a Baixada Fluminense em cenário de quadrinhos de super-heróis.

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Enfim, o ponto que eu quero chegar aqui é que ninguém é obrigado a ler ou gostar de quadrinho nacional. Como muitos eu também sou leitor de Marvel, DC Comics, Image e outras editoras gringas que já estão aí consolidadas. Mas a indagação que fica é “por que não dar uma chance ao conteúdo nacional?”

Vou dizer que nem é tão difícil. Escutem o podcast ou leiam o próprio MDM, os caras sempre dão boas dicas de novos projetos entrando no mercado. Os amigos do Terra Zero também fazem esse mesmo tipo de serviço. Assistam os vídeos do meu chapa Vinícius lá do 2quadrinhos que sempre tem boas dicas de tudo (e eu digo TUDO) que sai por aqui, seja de fora ou 100% gringo. A galera do Central HQs também faz um trabalho excelente nesse sentido, vai lá acompanhar os caras. Visitem outros eventos voltados para quadrinhos nacionais, como as edições do FIC (Festival Internacional de Quadrinhos).

Fica aqui esse desabafo e, de certa forma, essa homenagem a todos os artistas nacionais de quadrinhos. Pretendo me tornar um leitor cada vez menos medíocre e consumir mais esse tipo de material. Aliás, o próprio conteúdo aqui do site é muito fraco nesse sentido. Acho que é hora de fazer alguma coisa nesse sentido também.

Tenho muito orgulho do material nacional e tenho certeza que quando você conhecer melhor vai pensar da mesma maneira. Mas se não te interessar também, não se preocupe. Como eu disse no início não é nenhuma ofensa ser um leitor medíocre.

É simplesmente uma pena saber de tudo que você pode estar perdendo.

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2 Responses to “O Medíocre Leitor Brasileiro de Quadrinhos Nacionais

  • Eu digo que preciso mudar minha mentalidade com relação a quadrinho nacional, na época do desemprego acabava me virando para as HQs internacionais por ser um porto seguro, algo que gostaria com mais facilidade.
    Agora que estou empregado vou em busca de HQs nacionais e se tiver a oportunidade ir a eventos onde tenha a chance de conseguir essas histórias e conhecer os artistas por trás delas.

    • Thiago Almeida

      É um ótimo ponto de partida, Diogo! E hoje nós temos quadrinhos BR de tudo, cara! Terror, Ação, Ficção Científica, Humor… É só procurar que você acha. 😀

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