Nova Adaptação de “Piada Mortal” Revolta Alguns Fãs – “Precisamos De Mais Violência?”

Para quem ainda não sabe, Mark Hamill, nosso eterno Luke Skywalker, confirmou a produção de uma animação baseada numa das mais polêmicas obras do quadrinhos, A Piada Mortal (The Killing Joke) escrita por Alan Moore e com a arte de Brian Bolland.

As notícias já correm há algum tempo, desde a última Comic Con, e agora Mark foi confirmado novamente como o dublador do palhaço do crime. E o responsável por esse projeto será ninguém menos que o próprio Bruce Tim, já conhecido por seus excelentes trabalhos em Batman Animated Series, Superman Animated Series e Liga da Justiça.

Relembrando, A Piada Mortal publicada em 1988, é a origem definitiva do Coringa para os fãs. Na trama o Príncipe Palhaço do Crime aleija Barbara Gordon e tenta provar que tudo que uma pessoa precisa para ser como ele é um dia ruim. Enquanto isso ele tenta corromper o próprio Comissário Gordon, fazendo-o passar por todo tipo de tortura física e mental. Entretanto, apesar dos terríveis esforços do Coringa para quebrar o Comissário, ele se mantém firme até Batman conseguir impedir o vilão.

Essa é uma história memorável para muitos fãs (e também os não fãs) do Homem-Morcego – e é também alvo de muitas polêmicas. A mais recente foi em relação a capa variante da edição #41 da revista da Batgirl, com arte do brasileiro Rafael Albuquerque, fazendo clara referência a obra de Alan Moore. A arte foi acusada de ferir o publico feminino por lembrar da barbárie sofrida pela personagem Barbara Gordon. Nós falamos sobre o caso na época, você pode conferir CLICANDO AQUI.

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Arte do desenhista Rafael Alburqueque que causou polêmica há alguns meses

E gora, poucos meses depois do ocorrido, surge uma nova polêmica com o anúncio da animação baseada na Piada Mortal. O site Comic Book Movies, muito conceituado  por seu conteúdo e notícias, publicou em seu editorial um manifesto de repúdio sobre a produção dessa adaptação. O artigo é assinado por Mark Cassidy e recebe o título de Why THE KILLING JOKE Must Be Erased From Existence.

O artigo demonstra revolta ao saber que a obra será novamente lembrada em uma nova mídia:

“como se as lembranças horríveis daquele tempo horrível não fossem suficientes, então temos que lidar notoriamente com esse mal, misógino, documentado por Alan Moore, glamourizando este horrendo crime em uma graphic novel que ele teve a ousadia de entitular ‘A Piada Mortal’! Esse livro em quadrinhos foi escrito há muito tempo, mas agora vamos ter de lidar com um novo lembrete de tragédia que induz ao vômito – porque eles estão fazendo desenhos animados sobre ele!!”

 

O texto continua nessa mesma linha, clamando que os fãs e leitores se unam em repúdio ao projeto- inclusive fazendo uma lista de outras obras que ferem a figura da mulher na cultura pop: “Não deve-se permitir que isso aconteça. Os eventos daquele dia terrível em Gotham devem ser apagados da existência, juntamente com os seguintes exemplos de vitimização da vida real, de violência e desconforto sofrido por mulheres detalhados em várias formas de ficção, sem qualquer mérito artístico.”

Outros grandes sites internacionais sobre entretenimento também começaram a se manifestar contra essa nova animação, como foi o caso do Hitfix, em um artigo It’s time to kill ‘The Killing Joke’ . O texto escrito por Donna Dickens também demonstra revolta pelas pessoas ainda quererem explorar esse tipo de conteúdo. Segundo Donna,

“As mulheres são o grupo mais rápido em crescimento entre os consumidores de quadrinhos. Para retornar a uma história que gira em torno da vitimização e de exploração de um grande super-herói feminino parece ser um passo na direção errada. Até a equipe criativa de Batgirl discorda com o uso dessas imagens, pode ser hora de deixá-lo ir. ‘A Piada Mortal’ sempre terá um lugar nos anais dos fãs de Batman, mas é hora de parar de tentar ressuscitá-la para um público moderno. É hora de deixar ‘A Piada Mortal’ morrer.”

 

Pois é, este é um assunto complicado. Ninguém discorda que a história tem um teor bem pesado e a violência sofrida pelo personagem choca as pessoas. Mas em tempos de argumentos politicamente corretos parece ser ruim antagonizar tanto essa história como se ela fosse feita exclusivamente para ferir o publico feminino.

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Arte do quadrinho “A Piada Mortal” onde o Coringa atira em Barbara Gordon

Na minha opinião é preciso contextualizar. Estamos falando de uma história em quadrinhos onde temos o Coringa, um dos piores vilões da cultura pop, fazendo aquilo que ele sabe de melhor: trazer a morte, a dor e o caos. As pessoas tendem a repudiar a Piada Mortal mas não se incomodam tanto com “Morte em Família”, onde o palhaço do crime espanca Jason Todd, o 2º Robin, até a morte com um pé de cabra. Será que atirar na Bárbara Gordon é mais grave do que cometer um infanticídio?

Eu particularmente gosto da história pelo que ela gera depois. Adoro a personagem da Batgirl e achei incrível a transformação pela qual ela passou. Para quem se lembra, Barbara Gordon assumiu a identidade de Oráculo e passou a lutar contra o crime de uma maneira diferente, ajudando Batman e seus aliados com um trabalho de inteligência ao invés de saltar sobre os telhados e espancar criminosos em becos escuros.

Recordo-me de várias histórias onde ela teve até que se defender de agressões físicas, desenvolvendo uma luta com bastões já que estava restrita a uma cadeira de rodas. A personagem da Oráculo sempre foi para mim um exemplo de superação, e não de violência contra a mulher. O mal do Coringa não enxerga gêneros, penso que focar nesse tipo de pensamento seria apenas reforçar que as mulheres serão sempre mais frágeis que os homens, ao ponto de não tolerarem nenhum tipo de representação violenta na ficção. O que eu discordo totalmente.

Conheço grandes mulheres fãs de quadrinhos, escritoras, desenhistas. Todas de muito caráter e personalidades fortes que não se deixam abater por esse tipo de conteúdo. Pelo contrário, encaram essas obras pelo que de fato elas são: histórias de ficção onde vemos o bem contra o mal na forma de super heróis que combatem criminosos. São todas leitoras e telespectadoras que encaram de frente qualquer tipo de mensagem e sabem que certos argumentos, por mais escabrosos que possam ser, estão ali para embasar e compor uma narrativa – e não apenas para ferir a moral e os bons costumes.

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Robin também foi uma terrível vítima do Coringa, espancado até a morte com um pé de cabra

É claro que existem obras de mal gosto, que usam da violência apenas como vitrine para mídia. Mas repudiar todo e qualquer conteúdo sem colocá-lo em um contexto seria apenas uma espécie de repressão criativa. Vilões fazem coisas ruins, independente se as vitimas são homens ou mulheres, e isso faz parte de qualquer história. Devemos sim repudiar a violência contra a mulher, tanto na ficção quanto na vida real, mas também é preciso saber separar as coisas.

Por fim, eu gostaria de ver essa adaptação da Piada Mortal. Sempre achei estranhamente irônico as pessoas vestirem a camisa do Coringa como se ele fosse uma espécie de herói ou ícone pop que representasse algo de notório. Ou que vibram e “shipam” o relacionamento dele com a Harley como se fosse algo saudável, e não uma relação violenta e doentia como de fato é.

E para quem quiser saber mais sobre o Coringa e os fatos que mencionei aqui gostaria de indicar o podcast que fizemos exclusivamente sobre o personagem, em comemoração aos seus 75 anos de existência. Só CLICAR AQUI para ouvir o programa.

Até lá vamos esperar mais novidades sobre o caso e ver como a Warner/DC vai se portar diante das críticas.

 

PS: Na imagem do post foto do cosplayer Anthony Misiano.

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One Response to “Nova Adaptação de “Piada Mortal” Revolta Alguns Fãs – “Precisamos De Mais Violência?”

  • Pois é… Indignação seletiva a gente ver por aqui. Ótima comparação com duas histórias clássicas do Batman.

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