Girls Power – Mercado Feminino de HQs Está Mudando Ou É Apenas Mais Uma “Modinha”?

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É visível que de uns tempos para cá as garotas estão cada vez mais interessadas em histórias em quadrinhos, ou pelo menos no que está relacionado ao mercado de heróis dentro da cultura pop. Onde antes havia um mercado prioritariamente nerd masculino hoje já existe um filão para o público feminino. A questão então é: as coisas estão realmente mudando ou estamos passando apenas por um período de “modinha”?

Antes de tudo é preciso dizer que este post não é sobre “o feminismo nos quadrinhos” nem nada do gênero, é apenas uma reflexão sobre o posicionamento de mercado de quadrinhos junto ás mulheres. Mesmo que a gente acabe esbarrando nesses conceitos.

Começo citando um fato recente e curioso na lista das HQs mais vendidas nos EUA no mês de junho desse ano. Na cabeça da lista está o morcegão do Batman, o que não é novidade nenhuma já que ele figura em primeiro já há algum tempo. Mas vejam vocês que interessante logo abaixo em 4º lugar!

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A revista da Harlequina vem batendo mais de 90.000 exemplares vendidos! E isso não é exclusivo do mês de junho, é só olhar as classificações anteriores que dá pra notar que desde o reboot dos Novos 52 ela é uma das revistas que melhor faturou até agora. Acima da Liga da Justiça, que é uma das HQs mais populares atualmente. E acima também do Superman, que antes vinha sendo escrito pelo George Perez e agora passou para as mãos de Geoff Jonhs e artes de John Romita Jr!

Impressionante, não é? Isso me faz pensar desde quando o personagem da Harley começou a ficar tão popular? Lembro que até uns 5 anos atrás muita gente só conhecia a personagem por causa da série animada do Batman, onde ela era a assistente/namorada engraçadinha do Coringa, batendo no Batman com uma marreta rosa gigante. Talvez tenha sido o boom dos games da série Arkham, não sei bem ao certo. Isso sem contar as centenas de cosplays de Harleys que estão por toda parte em eventos de anime e feiras de quadrinhos.

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Harley Quinn, umas das revistas mais vendidas do reboot! Quem diria, hein?!

O fato é que a personagem realmente entrou no gosto popular, talvez por ser a sidekick de outro personagem muito popular que é o coringa. Ou pelo visual atrativo e carismático. Eu sinceramente até gosto da Harley, mas não a acho um personagem tããão profundo assim, ou com conteúdo suficiente para levar uma revista sozinha.

E não pensem vocês que a DC também não sabe disso. Tanto é que as histórias da Harley tem outra pegada. Podemos dizer sem muito medo que hoje ela é o “Deadpool da DC”, com histórias de uma pegada bem de humor escritas  pela Amanda Conner. Isso agradou aos fãs mais hardcores que gostaram de ver algo diferente e mais leve. E também pegou novos leitores, sem tanta bagagem, mas que se divertem com esse roteiro mais descompromissado. A editora vem acertando também em colocar a Harley sempre com outros personagens de apoio. Foi assim no trio das Sirens com a Era Venenosa e a Mulher Gato, e é assim também sempre que ela parece no Esquadrão Suicida. Sinceramente eu nem consigo mais associar a Harley obrigatoriamente ao coringa, é um daqueles personagens cuja proposta se enquadrou perfeitamente a um publico específico.

Outro caso recente e interessante também foi o da mudança de visual da Batgirl, que criou uma discussão positiva no fandom de comics. Há algumas semanas foi divulgada a arte do novo uniforme da heroína através das mãos da artista Babs Tarr, que é uma desenhista popular dentro do mercado indie de quadrinhos.

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Nova Batgirl, cheia de personalidade!

O visual da Batgirl sempre ficou muito a margem dos outros membros da Bat-Família. Roupas super coladas sem nenhum tipo de proteção, capa curta e traços alongados. Até versão com minissaia já apareceu por aí! Imaginem você patrulhar as ruas de Gotham dentro daquele body stretch justo até o útero? Pois é, nessa nova versão o tecido parece ser mais pesado, com uma jaquetona que não delineia tanto assim os seios, botões de pressão que prendem a capa e muitos bolsos para guardar armas e equipamentos. Esse visual agradou tanto que outros artistas, e até mesmo fãs, começaram a fazer suas próprias versões e publicar em fóruns e sites de imagens de HQs.

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Barbara com a reformulação do uniforme. Os fãs aprovaram!

Isso é realmente importante porque cria um marco na história do personagem. Como já foi dito acima, as roupas da Barbara sempre foram atochadas mais do que o normal e ela é um personagem que não faz uso nenhum de apelos sexuais, como a Mulher Gato ou a Estelar por exemplo. Vale lembrar até o contraste artístico em Aves de Rapina, na fase em que o roteiro era escrito pela Gail Simone e a arte do Ed Benes. Enquanto a Gail tentava fazer uma história que abordasse questões mais detalhadas e interessantes de um ponto de vista feminino o Benes vinha e desenhava todas as personagens em posições eróticas.

Querem a prova? Expliquem-me essa capa onde a Barbara está na mesa do computador jogando um bat-rangue aleatório. Sério, QUEM fica mexendo no PC nessa posição? Por favor, né?!

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Barbara Gordon pega no flagra fazendo showzinho na webcam!

Ainda dentro da DC fica impossível não comentar sobre a boa fase da Mulher Maravilha, escrita pelo Brian Azzarello e desenhada pelo Cliff Chiang. Aliás, as histórias da Diana foram umas das que mais ganharam com o reboot dos Novos 52. Ver o Azzarello chegar e colocar o pau na mesa dizendo algo como “olha só, minha Mulher Maravilha é uma amazona guerreira de 2,10 m de altura que bota pra quebrar”. A personagem é um dos medalhões da editora e sempre fez parte da “trindade”, mas sempre foi sexualizada demais. Até na lendária fase em que foi escrita pelo George Perez a Mulher Maravilha sofria na mão dos desenhistas. Não adianta você ter um roteiro que exalte o heroísmo e a desenvolva a construção do personagem se ela está sempre em posições torcidas, com decotes enormes, boca carnuda e cabelos ao vento. Agora com a arte do Chiang você consegue olhar pra ela e fica clara a mensagem: “Não mexa com essa moça!”

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Quem encara a Maravilha do Cliff Chiang? Eu que não!

Para o lamento de muita gente essa fase está chegando ao fim. A arte da personagem será assumida por David Finch e roteirizada senão por sua própria esposa, Meredith Finch. O que de cara já causou desagrado aos fãs que estavam curtindo essa Mulher Maravilha “sexy sem ser vulgar”. Finch não ajudou muito também a melhorar essa imagem quando publicou certos comentários em seu twitter:

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Ele publicou essas respostas em relação às criticas que recebeu depois do anuncio de ele iria assumir a Mulher Maravilha. Só que ele vem com todo esse papinho de quê a Mulher Maravilha vai continuar sendo uma guerreira forte e tudo mais e me disponibiliza esse preview. Olhem só!

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Preview da Mulher Maravilha do David Finch. Apenas comparem.

Tá de sacanagem, né?! Tudo que eu falei lá em cima de novo, dos lábios carnudos, posições eróticas, decotes, cabelos ao vento… Entendam, não estou criticando o design artístico do cara, acho o David Finch um bom desenhista. Mas dentro do que vinha sendo construído anteriormente com a personagem isso será um grande retrocesso.

Trabalhar com a Mulher Maravilha não é realmente uma coisa fácil. O público tradicional e masculino curte porque ela faz parte do panteão dos grandes heróis da DC e já participou efetivamente em grandes histórias. O publico de meninas enxerga nela o ícone máximo da representação feminina dentro do universo heroico das HQs. A DC sabe disso e vem tentando agradar ambos os lados, mas sabemos que isso nem sempre é possível. Prova disso é a revista Superman/Wonder Woman que não consegue se destacar nas posições de venda.

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Nem com selfie Superman/Wonder Woman consegue aumentar as vendas!

Percebam que a equipe criativa é até boa, mas a coisa não se desenvolve. Esse lance de super casal foi interessante no início, agradou muito ao fandom. Mas a longo prazo é complicado de se trabalhar. Fica a impressão de que eles quiseram dar outra abordagem a Mulher Maravilha fora da sua revista e encaixaram o Superman lá mais para dar um apoio narrativo do que realmente servir de co-protagonista.

Contudo, os fãs podem ficar felizes no final. Uma das premissas do reboot era realmente mudar as coisas, e aos pouquinhos a gente vai vendo isso. E aí vocês podem me perguntar: “Tá, mas e aew? E a Marvel? Só vai falar de DC?”

A impressão que eu tenho é que os editores da Marvel se preocupam muito menos com abordagens de mercado que envolva o publico feminino. A editora está em outra pegada, com muitos mini-universos de heróis dentro de um conjunto maior. Como editora de quadrinhos a Marvel me parece muito mais dedicada em ser uma mídia de apoio  atualmente. Todas as decisões parecem visar os filmes do cinema, até mesmo a arte dos personagens das revistas está mais próxima a dos respectivos atores.

“Ah, que isso! Você está exagerando!”
Não, não estou. Querem provas disso? Vejam as decisões de marketing e editoriais como minar a participação dos X-Men nas grandes sagas para não ceder nenhum tipo de mídia espontânea para os filmes da Fox. Ou chegar ao cúmulo de espalhar rumores sobre uma possível encerramento das edições do Quarteto Fantástico, um dos grupos mais clássicos e tradicionais que eles possuem. Tudo para não alavancar o filme que vem por aí, cujos direitos cinematográficos também são da Fox!

Eles só não mexeram com o Homem-Aranha porque, né?! Um personagem que sozinho se sustenta. Mas mesmo assim deram um jeito de colocar o Aranha convencional de lado e emplacar o Ultimate do Miles Morales e o Superior para difundir do filme da Sony.

Enfim, sem querer abordar outros tópicos, era só pra demonstrar que não existe muito para falar em relação a Marvel dentro do tema que vínhamos debatendo aqui. Talvez valha mencionar a nova Miss Marvel, que será uma adolescente Muçulmana. E o novo (ou nova) Thor, que será uma mulher empunhando o Mjolnir. Ambas valem a pena serem observadas, as propostas parecem interessantes.

Ah sim, falando em Marvel, não podemos deixar de fora o assunto da semana. O senhor desenhista Milo Manara, aquele véio sacana e gente boa que sabe desenhar mulher como ninguém, fez uma capa alternativa para edição americana da revista da Mulher Aranha. Quem conhece o trabalho do Manara sabe que o italiano sempre foi conhecido pelo seu estilo e traços que ressaltam a sensualidade. Mesmo assim rolou um mimimi danado nos sites e fóruns de quadrinho. Com acusações de racismo e sexismo por parte da Marvel. Acabou que no fim das contas a Panini italiana declarou que vai lançar o portfólio do Manara só com desenhos da Marvel. E se reclamarem muito vão lançar dois! HAHAHA

Sério? Vocês acham mesmo a capa do Manara ofensiva? Digam a verdade!

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Êêêê Manara, hein?! Véio danado!!!

Bom, se você não gostou então pode ficar com essa capa “maravilhosa” do Greg Land!

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E a capa da Spider-Woman politicamente correta do Greg Lang. Nhé…

Concluindo, fico satisfeito em ver esse tipo de posicionamento de mercado, mesmo que tímido. Claro que a figura heroica feminina pede personagens belas, sensuais e ativas. Mas certas quebras de paradigmas são interessantes também. Nesses tempos onde todo mundo resolveu achar cool gostar de super-heróis e desfilar por aí com camisas temáticas vale a pena prestar atenção qual tipo de conteúdo realmente tem a proposta de ser algo diferente e de qualidade, e não somente suprir as modinhas de mercado.

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