Dead Like Me – Quem diz que viver é um inferno?

Quando o humor negro se une à morte e nos dá de presente lições de vida.

Quando o humor negro se une à morte e nos dá de presente lições de vida.

Essa sou eu! Eu diria que sinto decepciona-los, mas não é verdade. Eu me respeito ao ponto de não dar a mínima. A experiência me ensinou que o interesse provoca expectativa, e expectativa traz decepção, então a chave para evitar decepção é evitar ter interesse. “A” igual a “B” igual a “C” igual a “A”, ou algo assim. Também não me interesso em ser uma pessoa boa ou ruim. Até onde eu sei, de qualquer forma você está ferrado. As pessoas más são castigadas pela lei da sociedade. E as pessoas boas… são castigadas pela Lei de Murphy. Então, vocês veem o meu dilema.” (Georgia Lass – S01E01)

Dead Like Me, série lançada em 2003 pela MGM Television, teve apenas 29 episódios divididos em duas temporadas. Tem como enredo a história de Georgia Lass (Ellen Muth), uma adolescente recém ingressa no mercado de trabalho que acaba, logo no começo da série, morta. Morta? Por um Vaso Sanitário. VASO SANITÁRIO? Sim, um vaso sanitário vindo do espaço, diretamente da Estação Espacial Mir (que ironicamente, no russo, significa “paz”).

Sim, ela morre logo no começo, sendo encontrada por Rube John Sofer ou “apenas Rube” (Mandy Patikin), o responsável pelos ceifadores, grupo de mortos-vivos que auxiliam na retirada das almas das pessoas que estão prestes a falecer, seja por vias naturais ou pela pior das mortes (como um vaso sanitário vindo do espaço). Rube explica à Georgia que pouco antes de falecer teve sua alma retirada do corpo por outro ceifador, a fim de evitar que continuasse sofrendo com as dores da morte (incluindo as dores de uma eventual autópsia e confinamento dentro do corpo pro resto da eternidade!). Ocorre que o tal ceifador tinha enfim conseguido completar o número de pessoas que tinha que ceifar e agora tinha que passar o posto para a última pessoa morta, ou seja: Georgia Lass!

A trama traz um diferencial com três tramas paralelas que por um motivo ou outro remetem à vida de Georgia Lass.

De início, temos a vida da própria Georgia uma adolescente entediada, despreocupada, e sem qualquer interesse de socializar-se com o resto do mundo, sejam pessoas ou objetos. Mas Georgia nem sempre foi assim. Temos ao longo dos episódios flashbacks do passado da pequena George, um pouco mais animada, mas que aos poucos vai se transformando na Georgia que reconhecemos no presente.

Tudo isso se comunica com a situação atual de sua família. Clancy (Greg Kean), o pai de Georgia, um professor de inglês, Joy (Cynthia Stevenson), a mãe e dona do lar, e a pequena Reggie (Britt McKillip). Com a morte de Goergia, a família começa a desmoronar e Reggie começa a andar os mesmos passos de Georgia: reclusa, obscura e entediante. Em meio a tudo isso, Georgia, ainda não aceitando a sua morte e desprendimento de sua antiga vida, dá umas bisbilhotadas na atual situação de sua antiga família.

J.D. (o cachorro da família), Joy, Reggie e Clancy

J.D. (o cachorro da família), Joy, Reggie e Clancy

Em sequencia, temos a segunda trama que se acaba sendo o foco principal da série. Georgia é apresentada a seus companheiros ceifadores: Mason (Callum Blue), um britânico drogado e desmiolado que lembra uma mistura dos membros da banda Sex Pistols; Roxy Harvey (Jasmine Guy) uma fiscalizadora de parquímetros que consegue representar muito bem o “Girls Power” na série; Betty Rhomer (Rebecca Gayheart), talvez a mais sensata e calma personagem da série, colecionadora de fotos dos seus “clientes”, ela serve como uma irmã mais velha para Georgia; e posteriormente temos a chegada de Daisy Adair (Laura Harris), uma jovem mimada que se vangloria de seus – muitas vezes eróticos – contos da vida de atriz na década 30, quando quase virou a principal estrela de “E o Vento Levou”, se não fosse sua morte durante as gravações.

Mason, Roxy, Goergia, Rube e Daisy

Mason, Roxy, Goergia, Rube e Daisy

Georgia enfim tem uma vida nova, com um rosto novo apenas aos olhos dos humanos, mas ainda continua perdida neste mundo, ainda mais sem receber nada por esse novo trabalho, o que nos traz à terceira trama do seriado, na qual ela é obrigada a arranjar um emprego na empresa “Happy Time Temporary Services”. Coincidentemente, é o mesmo local onde ela tinha acabado de ser contratada e, logo em seguida, morre. Assumindo a identidade de “Millie Hagen” ela é contratada por Delores Herbig (Christine Willes). Diferente do tratamento que Georgia tinha, Millie é logo adorada por Delores que a coloca debaixo de suas asas, tendo um papel de tutora de Georgia/Millie durante a série.

Delores Herbig (“With Her Big Brown Eye”)

Delores Herbig (“With Her Big Brown Eye”)

De apoio neste novo ambiente, temos Crystal Smith (Crystal Dahl), a recepcionista da empresa que demonstra total mistério durante toda a série, dando interpretações de que ela pode ter uma participação – jamais esclarecida – com os ceifadores na série.

Crystal Smith (também conhecida como Jane Smith) fala os idiomas espanhol, francês, russo, suaíli e serviu as Forças especiais no Sudeste da Ásia. Eu falei que ela era misteriosa...

Crystal Smith (também conhecida como Jane Smith) fala os idiomas espanhol, francês, russo,
suaíli e serviu as Forças especiais no Sudeste da Ásia. Eu falei que ela era misteriosa…

Dead Like Me é um seriado onde a morte deixa de ser apenas algo ruim e passa a nos mostrar que talvez a morte não seja o pior dos problemas. Nas palavras de Georgia Lass, “A vida é uma merda e então você morre. E continua uma merda”.

Durante a série vemos Georgia compartilhando seus pensamentos e falando diretamente ao público, quebrando assim a quarta parede e trazendo o melhor do humor negro. Os demais personagens – que dificilmente podem ser tratados como secundários – conseguem trazer grande valor a série, lembrando inclusive cenas mirabolantes de suas mortes. Mason, falecido nos anos 60, Daisy e Rube nos anos 30 e Roxy nos anos 80 dão vida às épocas em que viveram e trazem os arquétipos de cada era para o seriado, confundindo mais ainda a frágil mente de George que é bombardeada com ideias totalmente distintas.

Suas “caçadas” vão ficando cada vez mais interessante, enquanto ela vai ganhando mais gosto pela nova vida que tem. O que era desinteressante passa a ser curioso, trazendo referências ao famoso macaquinho “Curious George”. Vê-la sofrer por ter que tirar almas de pessoas que, em sua mente, não mereciam ser punidas, o que leva a jovem ceifadora a se dar mal inúmeras vezes chega a ser intrigante. Em contrapartida, ela tende a fazer o serviço perfeitamente bem quando sabe que alguém merece a morte, e parece curtir bem esse momento. Cada morte, cada episódio, uma lição de que temos um propósito aqui, na Terra, e essas lições são absorvidas por Georgia, que cresce a cada episódio se tornando menos adolescente, mais adulta, mas ainda indecifrável.

Os 29 episódios de Dead Like Me podem não ter sido suficientes para chamar a atenção do público e acabou por ser descontinuada. Mas isso não impediu a MGM de realizar um filme em 2009, trazendo grande parte do elenco, com exceção de Mandy Patikin e a troca de Laura Harris por outra atriz (Sarah Wynter), para dar mais uma olhada nos ceifadores de Seattle, além de dar um belo fechamento da história de George e sua família.

A série pode ser vista atualmente pelo Netflix, que possuí também o filme para seu divertimento.

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One Response to “Dead Like Me – Quem diz que viver é um inferno?

  • Gostei muito do que li aqui no seu site.Estou estudando o assunto,Mas quero agradecer por que seu texto foi muito valido. Obrigado 🙂

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